quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Cultura & Arte - Paisagem do Interior



PAISAGEM DE INTERIOR - Jessier Quirino

Matuto no mêi da pista
menino chorando nu
rolo de fumo e beiju
colchão de palha listrado
um par de bêbo agarrado
preto véio rezador
jumento jipe e trator
lençol voando estendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Três moleque fedorento
morcegando um caminhão
chapéu de couro e gibão
bodega com surtimento
poeira no pé de vento
tabulêro de cocada
banguela dando risada
das prosa do cantador
buchuda sentindo dor
com o filho quase parido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Bêbo lascando a canela
escorregando na fruta
num batente, uma matuta
areando uma panela
cachorro numa cadela
se livrando das pedrada
ciscador corda e enxada
na mão do agricultor
no jardim, um beija-flor
num pé de planta florido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Mastruz e erva-cidreira
debaixo dum jatobá
menino querendo olhar
as calça da lavadeira
um chiado de porteira
um fole de oito baixo
pitomba boa no cacho
um canário cantador
caminhão de eleitor
com os voto tudo vendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um motorista cangueiro
um jipe chêi de batata
um balai de alpercata
porca gorda no chiqueiro
um camelô trambiqueiro
avelós e lagartixa
bode véio de barbicha
bisaco de caçador
um vaqueiro aboiador
bodegueiro adormecido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Meninas na cirandinha
um pula corda e um toca
varredeira na fofoca
uma saca de farinha
cacarejo de galinha
novena no mês de maio
vira-lata e papagaio
carroça de amolador
fachada de toda cor
um bruguelim desnutrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Uma jumenta viçando
jumento correndo atrás
um candeeiro de gás
véi na cadeira bufando
radio de pilha tocando
um choriço, um manguzá
um galho de trapiá
carregado de fulô
fogareiro abanador
um matador destemido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um soldador de panela
debaixo da gameleira
sovaqueira, balinheira
uma maleta amarela
rapariga na janela
casa de taipa e latada
nuvilha dando mijada
na calçada do doutor
toalha no aquarador
um terreiro bem varrido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.


Um forró de pé de serra
fogueira milho e balão
um tum-tum-tum de pilão
um cabritinho que berra
uma manteiga da terra
zoada no mêi da feira
facada na gafieira
matuto respeitador
padre, prefeito e doutor
os home mais entendido
isso é cagado e cuspido
paisagem de interior.



Jessier Quirino

MINI-CURRÍCULO
Arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção. Apareceu na folhinha no ano de 1954 na cidade de Campina Grande, Paraíba e é filho adotivo de Itabaiana também na Paraíba, onde reside desde 1983.
Filho de Antonio Quirino de Melo e Maria Pompéia de Araújo Melo e irmão mais novo de Lamarck Quirino, Leonam Quirino, Quirinus Quirino e irmão mais velho Vitória Regina Quirino.
Estudou em Campina Grande até o ginásio no Instituto Domingos Sávio e Colégio Pio XI. Fez o curso científico em Recife no Esuda e fez faculdade de Arquitetura na UFPB -- João Pessoa, concluindo curso em 1982. Apesar da agenda artística literária sempre requisitada, ainda atua na arquitetura, tendo obras espalhadas por todo o Nordeste, principalmente na área de concessionárias de automóveis.
Na área artística, é autodidata como instrumentista (violão) e fez cursos de desenho artístico e desenho arquitetônico. Na área de literatura, não fez nenhum curso e trabalha a prosa, a métrica e a rima como um mero domador de palavras.
Interessado na causa poética nordestina persegue fatos e histórias sertanejas com olhos e faro de rastejador. Autor dos livros: "Paisagem de Interior" (poesia), "Agruras da Lata D`água" (poesia), "O Chapéu Mau e o Lobinho Vermelho" (infantil), "Prosa Morena" ( poesia e acompanha um pires de CD ), "Política de Pé de Muro - O Comitê do Povão" ( legendas e imagens gargalhativas sobre folclore político popular ), CDs: "Paisagem de Interior 1 e Paisagem de Interior 2", o livro: "Bandeira Nordestina" (poesia e acompanha um pires de CD), A Folha de Boldo Notícias de Cachaceiros - em parceria com Joselito Nunes -- todos editados pelas Edições Bagaço do Recife - além de causos, músicas, cordéis e outros escritos.


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2 comentários:

  1. Paródia Paisagem de Interior
    (Bob Motta)

    Um jumento garanhão,
    comendo à força a jumenta,
    uma bufa fedorenta,
    esvaziando um salão,
    festa de apartação,
    um inverno promissor,
    um vaqueiro aboiador,
    um cachorro desnutrido,
    Isso é cagado e cuspido
    Paisagem do interior…

    Um carro de boi cantando,
    carregado de madeira,
    tenta subir a ladeira,
    com os bois quase se arrastando.
    A seriema cantando,
    inspirando o trovador,
    papagaio falador,
    putanheiro e enxerido,
    Isso é cagado e cuspido
    Paisagem do interior…

    Comer um peba torrado,
    batata doce, tacaca,
    repolho cru, mão de vaca,
    e culhão de touro, assado;
    dá um peido desgraçado,
    ninguém agüenta, doutor.
    A podrura e o fedor,
    mata um homem enturido,
    Isso é cagado e cuspido
    Paisagem do interior…

    Uma turma conversando,
    lá no coreto da praça,
    peidos de feijão macassa,
    e as mentiras desfilando.
    Aposentado prosando,
    reclamando do calor,
    estórias de caçador,
    de convenção de partido,
    Isso é cagado e cuspido
    Paisagem do interior…

    Uma ruma de peão,
    dormindo no alojamento,
    bufas a todo momento,
    som de peido e violão.
    Muito feliz, o patrão,
    olha seu reprodutor,
    fudendo a todo vapor,
    no curral, desinibido,
    Isso é cagado e cuspido
    Paisagem do interior…

    Pamonha, milho, canjica,
    E fogueira de São João,
    forró quente no salão,
    é uma festa muito rica.
    Mais contente ainda fica,
    quem sarra com o seu amor,
    no escuro, sem pudor,
    no levantar do vestido,
    Isso é cagado e cuspido
    Paisagem do interior…

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  2. Quem colocou aquele jarro em cima da mesa?

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