quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Cultura&Arte - Cronica - João Bosco da Silva



O DILIGENTE LAVRADOR-MIRIM

      EM CERTA BOCA DE NOITE, entre fins de outubro e começo de novembro (de que ano seria...?), conversava-se ao terreiro, como de costume. De repente, seu Loura, o patriarca do clã, pede silêncio e põe-se à escuta, espreitando o horizonte. Levanta-se, observa, vai à ponta do terreiro, quase à entrada das vassourinhas.
          Engana-se.
         Retorna, volta a sentar-se na cadeira, lado esquerdo da porta, como de costume. Daí a instantes, outra vez a mesma atitude. Acha que agora viu. Sutil claridade piscando, rápida, ainda longe. Apura o ouvido e a vista, enquanto põe mais uma masca de arapiraca na boca.
         Nada não, engana-se de novo. Dá uma cusparada e retorna.
         Meia hora depois, quando muito, a mesma coisa. Procura ouvir ou enxergar através da noite de breu, como se buscasse algo além do horizonte fechado à distância pelas pontas trespassadas das colinas no “esse” do vale, ao nascente. Agora nuvens escuras subiam ao céu, apagando as estrelas, prenúncio que não observei, não obstante minha latente ansiedade.
         - Rezar o Terço, anuncia o Velho. E vai logo entrando.
         Entramos atrás, todos, para rezar o Santo Terço, obrigação / devoção infalível de toda santa noite. Daí a uma hora, mais ou menos (terço lá em casa era comprido!), finda-se o ato religioso. Quantos padre-nossos e ave-marias a quantos mortos e orações outras de encerramento? Um padre-nosso pra alma da  finada Sarica (minha mãe), outro para a finada Maria (minha irmã mais velha), para o finado Dedé (tio), e para uma infinidade de outros tantos finados, todos parentes e amigos. Após a “Salve Rainha” e o “Senhor Deus, misericórdia”, encerrava-se a reza, com todos piedosamente ajoelhados – amém!
         Espiritualmente confortado, sai novamente seu Loura ao terreiro, para de novo perscrutar o tempo. Demora-se um pouco e, ao retornar, traz a boa nova:
         - “Relampo” no nascente!
         Levo um bruto susto!
Sempre assim, nunca me acostumei, desde que peguei no pesado. Todo ano, aí por meados de outubro (as chuvas antigamente chegavam mais cedo), batia-me no peito a inquietação, o receio pelo início dos trabalhos. Naquela noite porém, não obstante a ambivalência de sentimentos, a “boa nova” pegou-me desprevenido. Nem percebera o sumiço da lua, tão animada que estava a palestra com Lista.
         O coração disparara. Dia seguinte seria a plantação de feijão no Viroveu, impreterível, coisa certa, porque Seu Loura jamais se enganava. Eram anos e anos de experiência observando os sinais do céu. Não seria dessa vez que iria errar. A maneira como se expressou, a ênfase no tom de voz conferindo a certeza, o júbilo demonstrado no anúncio não deixavam dúvidas. A chuva viria.
         E veio mesmo, infalível, forte, aterradora. Com ela, o detestado serviço. Pior que rapar paul, não obstante as ferroadas das formigas pretas e o perigo das jararacas e corais. Não gostava de plantar feijão. No Viroveu, de areia leve, havia os tocos a rasgar os pés; na beira do rio, barro massapé pegajoso e pesado: uma desgraça! Dava íngua, febre: escambichava-me. A dor nos quadris e virilha persistia por semanas.
         Daí o medo.
         Por isso eu rezava, rezava sempre, como naquela noite. Enquanto a chuva caía no telhado, puxava terços e rosários e clamava com fervor pelo meu anjo da guarda e até por santos que não eram propriamente das minhas relações. Fixara-me depois, por motivos óbvios, em duas protetoras poderosas, assim escolhidas conforme o “ministério” de cada uma: Nossa Senhora (incluíam-se todas: a das Mercês, a do Amparo, a do Rosário etc) e Santa Bárbara.
         À Nossa Senhora, por ser a mãe de Jesus, rogava para que fizesse parar a chuva para proteger do pesado plantio um filho órfão e desvalido, de apenas oito aninhos. Para que não chovesse tanto, para deixar para o outro mês, quando eu estaria mais “preparado”. Chovesse na outra semana, ou dali a dois dias. Aí seria domingo, dia de guarda, e não se trabalhava. E então na segunda feira a terra talvez estivesse seca, não se prestando ao plantio. À santa Bárbara pedia proteção contra raios e trovões, tão medonhos e assustadores.
         Teve jeito não. A chuva veio, não do jeito que eu queria, mas ao modo dela. Ou as santas não gostavam de mim ou minha reza era tão baixa que elas não podiam ouvir. “Mas me ensinaram que a gente pode rezar no coração e mesmo assim ser ouvido lá em cima” – pensava comigo. “Logo, eu devo ser um grande pecador, e mereço castigo, já que Santa Bárbara não me atende” - concluía. E, então, redobrava nas rezas, buscando não apenas os padre-nossos e as ave-marias, mas outras mais poderosas e profundas, como  a “Salve Rainha” e as partes que eu sabia do “Santo Ofício de Nossa Senhora”.
         A chuva veio mesmo naquela noite, valente, braba, com raios e trovões enceguecendo e trombeteando no espaço, como se fora o próprio apocalipse rasgando céus e terra em todos os horizontes. Era inútil enrolar a cabeça no grosso cobertor e embrulhar-me na rede. O fragor da tempestade sobrepujava quaisquer cuidados.
         Mais de cinco horas de chuva torrencial. Já se faziam ouvir, fragorosamente, os riachos botando, barulheira infernal, carregando paus e pedras, garranchos e obstáculos em seu caminho de areia. Caudatário de muitos riachos, não tardaria que também o rio começasse a estrugir e a roncar, levando de roldão, em sua fúria demoníaca, cercas e entulhos, canteiros e leiras e os montes de areia resultantes das arrasações para o plantio do alho, há pouco tempo colhido.
         Gostoso era ficar-se ouvindo o pipocar dos trovões no alto de nossas cabeças e imaginá-los a rolar nos céus eletrizados até que a fúria dos seus elementos se transformasse em longínquos e inofensivos clarões e em sonoros e surdos ribombos a estremecer no bojo da terra abençoada. Espetáculo realmente bonito de se ver, não fora o meu espírito pusilânime e aberto aos terrores da mãe-natureza.
         Falharam todas as minhas estratégias rogatórias. Manhãzinha, o tempo estava esplêndido! Cheiro de terra molhada no ar, como se houvera um longo e benéfico ato amoroso entre o céu e a terra agora intumescida.
Eis-nos a caminho do Viroveu.

                   Ei-lo montado no seu jumentinho,                 
                   enxada  às costas, rumando a caminho
                   do nosso amigo e alegre Viroveu;
                   contente segue, vai cantarolando,
                   nesta simpleza rude murmurando
                   preces ao Criador, porque choveu.

                            E já parece ver-se no roçado,
                            buracos a abrir no chão molhado
                            (e eu atrás, feijão a semear);
                            e embevecido assim em seus cismares,
                            surra o jerico, içando pelos ares
                            o chicote. E não tarda de chegar.

         Não tarda de chegar. Vou de coração pequenino. Mas vou-me consolando, dando um jeito de adiar o serviço, como à espera de um milagre. Satisfazia-me ainda estarmos passando pela Serra de Antônio Mole. Depois, pela de Quincó de Chico. Faltava ainda a de Mané Ilia, nosso primo. Depois...
         Não havia mais depois. Nem escapatória. Estamos chegando. Meu pai desapeia. Abre a porteira. Passamos.
         Ainda uma leve esperança de adiamento: a caminhada até a roça. Quem sabe uma estrepada, uma cobra... “Virgem Maria, Deus que me livre e guarde!”
         Para desconsolo meu, a roça a ser plantada em primeiro lugar é a nova. Sabedoria e experiência do Velho. Terra de roça nova, recém-queimada, não permite bem a penetração da chuva. Daí plantá-la primeiro, antes que o molhado desapareça. Os terrenos de capoeira podem esperar porque absorvem a água em maior quantidade, permanecendo molhados por mais tempo.
         Desgraça!
Era agora. Os afiados tocos me esperam...
         “Nas horas de Deus, amém” - diz seu Loura. – “Vamos plantar nossa bendita rocinha. É como eu sempre digo: você, João Bosco, tem mãos e pés abençoados, tudo o que você planta e semeia nasce bonito, vistoso!”
         E bate a enxada no chão, abrindo a primeira cova.
         Não vou dizer que o elogio me cativou. Xingo e rogo mil pragas, baixinho. Mas vou semeando.
        

até as primeiras águas do ano seguinte, quando o “diligente” lavrador-mirim estará de novo em ação.




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